Sobre quando o privilégio não é para os homens

Por Eloisa Basto*

Em junho, uma empresa assume uma obra que vai gerar cerca de 9 mil empregos na cidade de São Paulo. Pouco depois, mais especificamente no dia 23/6, Dia Internacional das Mulheres na Engenharia, ela lança o programa “Mulheres na Construção”, de estímulo à contratação de mulheres na construção civil. “Pretendemos chegar a 80% da ocupação feminina”, uma frase capaz de gerar um incomodo gritante na sociedade.

Sete meses depois, no dia 1/2 do ano seguinte, infelizmente, e ainda sem causa descoberta, acontece uma tragédia na obra da Linha 6-laranja do metrô de São Paulo, sob responsabilidade de concessionária que a empresa citada anteriormente – Acciona – integra. A tragédia foi a abertura de uma cratera na Marginal Tietê, uma das principais avenidas paulistas, após o asfalto ter cedido.

Prato feito para aqueles que possuem sua vida pública construída baseada no machismo e na misoginia. O filho do atual presidente do Brasil e também deputado federal Eduardo Bolsonaro não demora para espalhar em suas redes sociais e de apoiadores um vídeo que incita o ódio, alarga a desigualdade de gênero e desacredita e desqualifica as mulheres – em especial as engenheiras.

“Homem é pior engenheiro?” – ele questiona e nós respondemos:

Não, Eduardo Bolsonaro, homem não é pior engenheiro. Mas não são os homens que precisam, ainda hoje, provar sua capacidade técnica e intelectual, principalmente em um meio como a construção civil. Não são os homens que que têm que provar competência e preparo para ocupar locais que por décadas não foram acessíveis para os mesmos.

Você sabe quantas mulheres já foram prejudicadas em uma vaga por serem mulheres? Inúmeras, poderíamos até ousar sem medo de errar e responder: na engenharia, praticamente todas. Mulheres competentes, com formação semelhante, ou até superior a de muitos homens não passam em seleções de emprego apenas por serem mulheres, apenas por estarem concorrendo com homens que, historicamente, sempre foram privilegiados. Mas quando esse privilégio não é direcionado ao sexo masculino, incomoda e gera revolta.

A Acciona faz parte das empresas internacionais que adotou uma política de combate à garantia de privilégios para um grupo em razão de seu gênero. Um exemplo a ser seguido no mundo. Para além de reparo histórico, não precisa ir muito além para reconhecer a competência de mulheres e suas capacidades, em especial na engenharia.

O ocorrido em São Paulo está sendo apurado, as causas aparecerão, mas não podemos aceitar mais essa manipulação do patriarcado para tirar as mulheres de postos de trabalho, de espaços de liderança, da construção civil, muito menos desqualifica-las.

Lugar de mulher é na engenharia, SIM! E temos competência para isso.

*Eloísa Basto é engenheira civil e diretora da mulher do Senge-PE