O Sindicato dos Engenheiros de Pernambuco surgiu em 1935, aos 14 dias de fevereiro, numa noite de quinta-feira. Surgiu a partir de várias demandas dos engenheiros, entre as quais se destacavam o combate ao emprego dos estrangeiros, que ocupavam as vagas dos brasileiros, a regulamentação da profissão e aos baixos salários pagos pelas empresas, que eram poucas. Foi fundado na mesma época que os demais, como os de São Paulo e Rio de Janeiro. O Estado brasileiro vinha, desde o golpe que fundou a república, passando por turbulências políticas, e a década de 1930 não foi diferente, com os movimentos operários e as elites que dominavam o país disputando o poder através das alternativas políticas e ideológicas colocadas no mundo e no Brasil. A república brasileira ainda não tinha estabilidade e havia saído de um governo provisório, fruto de um novo golpe de estado, que levou ao poder o ideário fascista e corporativista importado por Getúlio Vargas e companhia. Nesse governo provisório foi criado o Ministério do Trabalho, que estruturou a base do sindicalismo controlado pelo estado, implantado e em vigor até hoje no Brasil. O golpe foi apoiado em Pernambuco por Carlos de Lima Cavalcanti, que recebeu como “prêmio” a interventoria do Estado das mãos de Getúlio Vargas. O interventor, nos primeiros anos de governo, marcou sua atuação política polêmica pela defesa da sindicalização da classe operária, pelo incentivo às manifestações das forças populares e pelo combate às propostas de reconstitucionalização do País. Desde então, o sindicato seguiu – como orientava o manual corporativista, que conquistou seus fundadores –, uma trajetória de alternância entre a obediência ao estatuto de fundação, que prescrevia a colaboração com o Estado no estudo e solução dos problemas que direta e indiretamente se relacionasse com a profissão, e a resistência, na defesa do estado democrático de direito, mesmo tendo nascido no breve governo constitucionalista de Getúlio Vargas, que administrava o país entre duas grandes forças políticas de então. Os integralistas, representantes da direita, desejosos de um governo centralizado e sem liberdades constitucionais e a Aliança Libertadora Nacional, clamando por reforma agrária, revolução por meio da luta de classes e combate ao imperialismo. As lutas e o oportunismo golpista levaram Getúlio Vargas à criação do Estado Novo, ditadura que o manteve no poder por quinze anos. Atravessamos, nesses 89 anos, muitos períodos de agitação e truculência, tanto políticos quanto econômicos. Quando chegamos aos 200 sócios o Brasil vivia mais um estado de exceção, o longo período do Estado Novo, quando as bases da economia industrial foram implantadas, e em Pernambuco o interventor federal de plantão era um dos mais influentes conselheiros do presidente, o professor Agamenon Magalhães. Somente em 1950, quando o país ainda andava de trem e a indústria automobilística iniciava sua instalação, com o número de registro 209, é que conseguimos a primeira sócia do sindicato. Foi a engenheira Maria Eugênia de Moraes, com graduação em engenharia civil, e que trabalhava no DER, Departamento de Estradas de Rodagem do governo do Estado. A ocupação da nossa Maria Eugênia, trabalhando solitariamente numa profissão eminentemente masculina, sinalizava a luta que as mulheres ainda teriam que travar em busca do espaço que lhes seria destinado na sociedade, além da opção pelo setor rodoviário que seria adotada no Brasil. O Brasil tinha saído da tragédia que resultou da oposição de Carlos Lacerda e os conservadores do país a levar o presidente eleito Getúlio Vargas ao suicídio. Mas o Brasil do patrimonialismo e do mandonismo, e da consequente instabilidade permanente, voltou com a renúncia de Jânio Quadros, um golpe que instalou um breve período de parlamentarismo, mais um golpe, que tirou João Goulart e seu governo reformista da presidência da República e Miguel Arraes do governo de Pernambuco em 1964. Tivemos ainda um golpe dentro de outro, em 1969, que instalou uma ditadura sangrenta, com desaparecimentos e mortes de perseguidos políticos e cassou até um ministro do Supremo Tribunal Federal. Foi nesse período instável e sombrio, que conseguimos uma vitória simbólica e histórica, quando o Congresso Nacional aprovou e derrubou o veto presidencial à Lei nº 4.950-A, de 1966, que criou o Salário Mínimo Profissional para nossa categoria. O Senge-PE, nesse longo período entre o Estado Novo e meados da Ditadura Militar, esteve, junto com outros sindicatos, trabalhando pela formação da federação, que se concretizou no início dos anos 1960 e deixou como triunfo ideológico para a posteridade a eleição de um sócio e ex-diretor, Pelópidas Silveira, como primeiro prefeito de esquerda da Cidade do Recife. Foi o primeiro prefeito a implantar um processo de consulta aos munícipes, para decidir onde, quando e como seria implantado o orçamento.
No final da década de 1970, quando os sinais da crise econômica, o descontentamento social e as greves do ABC paulista, empurraram a ditadura para a abertura, o retrato da engenharia em Pernambuco havia se transformado. Além do DER de Maria Eugênia, havia a Celpe, a Telpe, a Compesa e vários outros órgãos estaduais, e com a chegada da Chesf, da Sudene e de outros órgãos federais e ainda de grandes empresas de engenharia consultiva, o número de sócios do Senge ultrapassou a barreira dos 2.000. Em 1983, depois de um longo período de apatia e duas eleições, o sindicato renovou a direção e persiste com o mesmo grupo político até os dias atuais. Com esse novo grupo político na direção do sindicato nós fomos base de criação de várias entidades, demos apoio e ajudamos a construir muitas oposições democráticas de outros sindicatos e reconstruímos a trajetória de luta em defesa dos direitos dos engenheiros e engenheiras e da engenharia pernambucana. Estivemos presentes em todas as grandes lutas democráticas da nação, como as diretas já e o impeachment de Color. Ajudamos a fundar a Fisenge, lutamos contra a Alca, contra a privataria tucana, o pagamento da dívida externa e a favor da reforma agrária. Depois de 2002, quando elegemos Lula e Dilma, o Brasil teve um novo breve período de desenvolvimento e a engenharia e os engenheiros tiveram uma boa temporada de valorização, o Senge passou por bons momentos de consolidação das lutas sociais. Mas, a partir das manifestações de junho de 2013, e da implantação da LavaJato e de um novo período golpista, quando tiraram a primeira presidenta eleita democraticamente do poder, prenderam Lula, e aprovaram as reformas trabalhista e sindical, os sindicatos e a sociedade voltaram a viver uma nova quadra turbulenta, que resultou na eleição de um governo de ultra direita, que concluiu a desconstrução de todo o esforço desenvolvimentista implantado nos governos democráticos de Lula e Dilma.
Esses últimos desgovernos se apoderaram da nação, destruíram as grandes empresas de engenharia brasileira, privatizaram a Eletrobras, quase destruíram a Petrobras, mas não enfraqueceram a nossa resiliência e hoje nós estamos com uma presidenta e uma diretoria executiva do Senge-PE composta majoritariamente por mulheres, que dignificam e engrandecem ainda mais a nossa luta por melhores dias, com menos desigualdades e por uma engenharia forte e um país desenvolvido, democrático e soberano.
Roberto Freire, diretor de divulgação e cultura do Senge-PE e presidente da Fisenge
Conheça mais sobre a história do Senge PE no nosso projeto Memórias, clicando AQUI






