O Crime da privatização da Eletrobras, por José Ailton de Lima

Por que há que se falar em crime da privatização da Eletrobras? Ora, um crime ocorre quando alguém indefeso é sobrestado a entregar seus pertences sob a ameaça real ou fictícia de uma arma. No caso, temos um patrimônio vultoso, construído ao longo de sete décadas, de suada aplicação de poupança do povo , coletada através do Estado Brasileiro. Estima-se que esse patrimônio acumulou benfeitorias avaliadas em mais de 370 bilhões de reais ao longo desses anos. Este patrimônio gera energia elétrica para a população e lucros e dividendos para os seus acionistas. Portanto, não é um latifúndio improdutivo, muito pelo contrário.

Chega-se agora pela via da ilegitimidade de um golpe parlamentar e entrega-se o controle acionário desse patrimônio a segmentos privados, sejam brasileiros ou estrangeiros, por meros 20 ou 30 bilhões de reais. Aqui está o crime. Os golpistas entregam o controle acionário do patrimônio e permanecem dentro para dar uma aura de legítima defesa ao crime. Mais honesto seria vender todo o patrimônio por 250 ou 300 bilhões de reais e sair fora do negócio. Se o argumento da eficiência privada é para valer, então entreguem de vez aos ditos senhores todo o negócio, mas pelo menos recebam o que é devido. E por que não fazem isto? Porque configuraria crime de lesa pátria do mais rasteiro, expondo claramente a entrega da soberania nacional a sanha do capital. Nacional ou externo.

Sabem os golpistas que o argumento da eficiência privada deve ir direto para a cloaca. Sabem os mesmos que o dito capital privado não quer correr um risco desmesurado, fazendo uma transação que, mais na frente, pode ser acusada de criminosa. Preferem os golpistas garantir legitimidade ao negócio. E essa fórmula também atende ao capital privado, pois, em última instância, se as coisas não forem tão boas quanto parecem, jogam o negócio de volta para o minoritário Estado salvador de ineficiência. Aliás, dessa arte entende bem o aprendiz de feiticeiro, dito, nestes tempos sombrios, de ministro de Minas e Energia.

Alguns incautos diante da tocaia pensam em reagir propondo um acordo. Propõem esses trocar a entrega do patrimônio nacional às custas de um benefício regional. Fórmula simples. Retira-se a Chesf da negociata, aumenta-se a sua tarifa (o povo que se exploda, no dito popular) e cria-se uma regra específica para essa empresa regional. Se é por aí, façamos logo como a Catalunha e vamos pregar abertamente a separação do Nordeste do resto do Brasil.

No impedimento da Presidenta Dilma não houve crime de responsabilidade e, mesmo assim, ela foi condenada. Cometeu-se um crime bárbaro contra o povo e dilapidou-se mais uma vez o patrimônio da democracia, que vinha sendo construído a duras penas. Também, agora, repete-se a barbárie, ad nauseam, contra um patrimônio mais palpável, mas que se tornará arma de carestia contra o povo. O modelo atual do setor elétrico nacional já prevê a participação do capital privado no negócio, entrando em novos empreendimentos, botando a cara ao risco. Não há uma frase sequer dos golpistas demonstrando que o modelo atual fracassou. Mas, golpista entreguista é uma desgraça para qualquer povo, e não seria diferente com o Brasil. Até quando?

José Ailton é engenheiro e ex diretor de operação da Chesf