Fator K: um acidente?

Vários eventos classificados como acidentes aconteceram entre o final de 2016 e início de 2017. Duas quedas de avião, pelos passageiros que transportavam, foram tratadas pelos noticiários nativos como tragédia. Das três rebeliões em presídios, que amedrontaram o país, contabilizando mais de cem mortos e planejadas pelas suas maiores organizações criminosas, uma foi erroneamente chamada pelo presidente golpista de “acidente pavoroso”.

Um evento aparentemente discreto para a sociedade pernambucana, que talvez por sua desinformação não conseguisse avaliar corretamente a importância embutida naquela decisão, foi o desbloqueio das contas da Chesf, no dia 25 de janeiro.

A Chesf, como afirma a sua diretoria atual, ainda é o “vetor do desenvolvimento regional”. Empresa sobrevivente de inúmeros ataques, desde a sua criação, e ainda sob a mira dos que a querem fatiada para depois privatizá-la, ou quem sabe destruí-la, continua de pé e com muitos defensores comprometidos com sua existência.

O último ataque a que foi submetida a empresa, foi o bloqueio de suas contas bancárias, por conta de uma disputa judicial, conhecida como “Fator K”. O bloqueio de mais de R$ 600,00 milhões foi determinado pela 12ª Vara Cível da Comarca do Recife e foi validado pelo Tribunal de Justiça, comprometendo as atividades operacionais da empresa, concessionária de serviço público de energia elétrica, entre maio de 2016 e janeiro de 2017.

O processo que originou o bloqueio é relativo a cobrança de correção de preços no contrato de construção da usina hidrelétrica de Xingó, que se arrasta desde o final da década de 1990. A Chesf informou, na ocasião do bloqueio, que havia R$ 1,1 bilhão provisionado nas Demonstrações Financeiras da Companhia, no primeiro trimestre de 2016.

Por que foi feito o bloqueio? Mesmo tendo perdido na 2ª turma do STJ, ainda cabia recurso na ação de execução. Por que submeter a empresa que é “o vetor do desenvolvimento regional” a uma asfixia que “paralisou as obras e ficou praticamente sem condições de operar”, segundo o ex-presidente José Carlos de Miranda Farias, engenheiro da casa e última indicação do governo Dilma?

A queda do avião da Chapecoense já está praticamente elucidada. O “acidente” com o avião que transportava o ministro do STF Teori Zavaski continua sendo investigado e desafiando as probabilidades matemáticas. Serve também para alimentar a literatura, o cinema e as mentes fantasiosas das pessoas comuns. No cinema e na literatura é muito utilizada a frase “faça parecer um acidente”, para se referir aos criminosos na tentativa de encobrir um “crime perfeito”.

O presidente golpista precisa voltar aos bancos escolares para aprender o significado da palavra acidente. O desbloqueio das contas da Chesf, alguns dias após a troca do presidente da empresa, com certeza absoluta, não foi um acidente.

Por Roberto Freire, engenheiro eletricista e diretor de divulgação e cultura do Senge-PE