Homenagem ao Engenheiro Clayton Ferraz Paiva (1936-2025)

No dia 3 de junho de 1936, nascia em Recife Clayton Ferraz Paiva, filho de um alfaiate e morador do Alto da Torre, na zona norte da cidade. Criado em uma família sem ensino superior, estudou no Ginásio da Madalena e no Salesiano antes de ingressar na Universidade Politécnica da Escola Católica de Pernambuco (atual UPE). Na dúvida entre engenharia e medicina, formou-se engenheiro eletricista em 1965 e, mais tarde, também em engenharia civil.

Sua trajetória foi marcada pela luta por justiça social. Influenciado pelo movimento jesuíta, Clayton se formou ideologicamente na esquerda, defendendo uma sociedade mais igualitária. Durante a militância estudantil, conviveu com nomes como Ayala, Fernando Teixeira e Edgar Maranhão. Em 1964, como vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE), viu seus planos de presidir a entidade serem interrompidos pelo golpe militar.

No dia do golpe, Clayton estava entre os que protestaram na Avenida Conde da Boa Vista. Ao ouvir os tiroteios que mataram um estudante, testemunhou a invasão do Sindicato dos Bancários e da União dos Estudantes de Pernambuco pelo Exército. Nos anos seguintes, participou de reuniões clandestinas e integrou a Ação Popular, resistindo à ditadura que, como ele dizia, “reduzia o cidadão a nada”.

Formou-se e iniciou sua carreira na SUDENE, onde permaneceu por sete anos, e, mais tarde, na CHESF, onde passou quatro no Rio de Janeiro e depois retornou à capital pernambucana. Nesse período, aprofundou-se em estudos sobre marxismo e sociedade, influenciado por pensadores como Teilhard de Chardin.

De volta a Pernambuco, foi convidado por Carlão Aguiar (in memoriam) a ingressar na luta sindical. Participou de greves, ocupações e assembleias, sempre em defesa da engenharia e dos trabalhadores. Em 1995, entrou para a diretoria do Senge-PE, onde foi secretário, tesoureiro, vice-presidente e, finalmente, presidente (1996–2001). Também presidiu a FACHESF em dois mandatos (1985–1987 e 2003–2015) e atuou na ABRAPP, na FISENGE e no CREA-PE.

Clayton acreditava que a democracia se construía no conflito e no respeito às diferenças. Antes da era das fake news, já alertava:

“A informação é boa, mas perigosa. Ela vem carregada de visões de mundo. É preciso questionar, analisar, aprofundar — senão, tudo parece verdade.”

Preocupava-se também com o futuro da engenharia:

“Os novos profissionais saem da universidade com uma cabeça só técnica, pensando apenas na carreira. Precisamos de engenheiros que também reflitam sobre a sociedade.”

No dia 14 de abril de 2025, despedimo-nos de Clayton Paiva. Sua serenidade, ensinamentos e compromisso com a luta sindical deixam saudades. Como disse a presidente do Senge-PE, Eloisa Moraes: “Ele sonhava com um país mais justo e humano. Seguiremos honrando seu legado.”

Em uma de suas últimas entrevistas ao Senge-PE, Clayton celebrou a diversidade: “A elite não gosta de ver negros, mulheres e LGBTQIA+ ocupando espaços. Mas eu acho ótimo! Em breve, seremos nós os ‘prejudicados’ — e isso é justo.”

Clayton partiu, mas sua luta permanece.

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