MARIA DE POMPEIA LINS PESSOA – UMA ENGENHEIRA ARRETADA

 O gosto pela matemática fez dela uma grande engenheira. O envolvimento com a igreja católica a inspirou e a inseriu nas lutas sociais. Ela é Maria de Pompeia, engenheira, militante, nordestina, mulher e mãe.

Pompeia, desde criança, gostava era das brincadeiras que os meninos gostavam. “Eu jogava era de jogar futebol com os meninos”. E, diferente de grande parte das crianças e adolescentes de sua idade, ela era apaixonada pela matemática. Tal encantamento a fez uma grande engenheira. Ela, que veio para o Recife em 1969 fazer Escola Técnica, e cursar Eletrotécnica, optou pela Engenharia Elétrica quando foi cursar o ensino superior.

Aula na Escola Técnica Federal de Pernambuco em 1971 / Foto: acervo pessoal

De família católica, a engenheira, desde muito pequena, é envolvida com a igreja. “Mas, sempre foi aquela igreja em busca de igualdade. A igreja dos pobres, da gente lutar para que nós todos tenhamos tudo, tenhamos igualdade. E eu até brinco: não sei como se tem um cristão que não é socialista”. Foi no catolicismo que Pompeia se identificou com a luta por igualdade de classe e começou sua militância por uma sociedade inclusiva e mais justa.

1ª comunhão de Pompeia aos 5 anos / Foto: acervo pessoal

A militância, que começou nos grupos de jovens da igreja, acompanha a engenheira até os dias atuais e marca sua trajetória na Universidade e em todos os espaços que ela ocupa. “Eu militei muito na Escola de Engenharia, militava com o pessoal que era um ano mais adiantada que eu, a turma de 75. Lutamos juntos pela conquista do Diretório, era A Voz o nome da chapa que a gente defendia”.

Sempre acolhida pelos colegas, Pompeia não sentiu as dificuldades de ser mulher em um meio majoritariamente masculino durante sua vida de estudante. O que não a deixava confortável quando presenciava outras colegas sendo alvo do preconceito. “As meninas iam passando e alguém sempre tinha que dizer um palavrão para agredir a menina. Uma vez um professor chegou na sala de aula e disse ‘olhe, fulana tirou dez, e olhe que ela é uma mulher’. Eu fiquei furiosa e parti para cima”.

O mercado de trabalho, por sua vez, não foi tão acolhedor para ela, como as escolas. Pompeia vivenciou vários episódios de discriminação e preconceito de gênero. “A cada dia a gente tem que dizer ‘olhe, eu sei fazer, eu sou tão boa quanto ele’. Não basta simplesmente ser, você tem que todos os dias mostrar que é”.

Na Universidade, ao se candidatar para uma vaga de estágio na Philips, ela passou por uma desagradável experiência. “Quando cheguei lá, o cara disse ‘você é mulher’, eu disse ‘sim, e quero fazer o teste assim mesmo’, fiz o teste, muito do que ele queria não era de estudante de engenharia, e sim de técnico, e eu tinha feito escola técnica. Mas, depois quem passou foi um colega, e ele mesmo me disse ‘Pompeia, tu só não passasses porque tu eras mulher”.

Com sete anos de formada, quando precisou morar em São Paulo, teve várias dificuldades para conseguir emprego. “Em muitas empresas, diziam ‘a vaga é pra engenheiro’, eu respondia ‘sim, eu sou engenheiro, só não sou homem, mas sou engenheiro’, aí ele ‘não, mas você é mulher’. Um deles chegou a me oferecer o cargo de secretária”.

Antes de se formar, enquanto cursava o quarto ano da Escola de Engenharia, Pompeia foi, como estagiária, trabalhar na Chesf.  Em 1976, quando se formou, foi admitida como engenheira.

Trabalhando na Chesf em 1980 / Foto: acervo pessoal

O desejo de Pompeia era trabalhar no Departamento de Construção, mas foi no de Suprimentos que ela iniciou sua vida profissional como engenheira na Chesf, mais uma vez, por ser mulher. “Depois de três anos dentro da Chesf, brigando, brigando e brigando, eu fui a primeira mulher a trabalhar no departamento de construção. Fui, inclusive, chefe da divisão de construção que só tinha homem”. Ela chegou a chefiar uma equipe de mais de 150 homens, o que causava alguns “problemas domésticos” para a peãozada, que ouviam de suas companheiras: ‘lá na Chesf você é comandado por uma mulher’.

Na subestação Messias em 1994 / Foto: acervo pessoal
Confraternização com equipe em 1995 / Foto: acervo pessoal

Na Chesf, ela tem uma história marcada por muita luta pelos trabalhadores. Participou de diversas manifestações e greves, e em 1982 foi vista como ameaça pelo regime ditatorial, sendo demitida. Em 1990 também.  

Pompeia ao lado de Lula na greve de 1990 / Foto: acervo pessoal

Em 1987, foi eleita pelos trabalhadores como diretora de benefícios da Fachesf, a primeira mulher a exercer o cargo. Em 2002, foi diretora do Senge-PE. No governo Lula, ocupou na Chesf a superintendência de manutenção de usinas e subestações, sendo a primeira superintendente de manutenção mulher do Grupo Eletrobras. Em 2010, assumiu a presidência da Companhia de Transporte e Trânsito do Recife, CTTU.

Pompeia fazendo política / Foto: acervo pessoal

No dia 17/06, em evento que homenageou os 86 anos do Senge-PE, Maria de Pompeia Lins Pessoa foi homenageada.

“Nosso sindicato é feito por pessoas, pessoas que dedicam horas dos seus dias na construção de um projeto coletivo, que contribuem com ideias, com sonhos e com muita luta. Não tenho dúvidas que nossa entidade foi construída a muitas mãos e hoje homenageamos uma engenheira porreta: Maria de Pompeia Lins Pessoa, minha amiga Pompeia”, discursou o presidente do Senge-PE Mozart Arnaud.

Participação virtual de Pompeia no evento dos 86 anos do Senge-PE / Foto: Rennan Peixe/Senge-PE