A vida dos tubarões de Noronha, pelo engenheiro de pesca Leonardo Veras

Durante o terceiro dia do XX Congresso Brasileiro de Engenharia de Pesca (10/11), o engenheiro de pesca Leonardo Veras realiza conferência com o tema “Fernando de Noronha, a Ilha dos tubarões: uma experiência a ser vivida”

Na Ilha de Fernando Noronha, localizada no estado de Pernambuco, o Museu dos Tubarões é, desde 1997, um grande atrativo para os turistas. Sejam aqueles que estão em busca de lazer, seja para o turismo científico: pesquisadores, universidades e estudantes, em geral, interessados em conhecer mais sobre a espécie e a oceanografia da Ilha. Idealizado e administrado pelo engenheiro de pesca Leonardo Veras, o Museu já é incorporado nas atividades obrigatórias para quem visita Fernando de Noronha.

Leonardo conta que antes do surgimento do Museu, foi fundado o Noronha Pesca Oceânica, em 1990, uma empresa especializada em pesca e beneficiamento de tubarões. “Nós realizávamos a pesca sustentável, a nível artesanal, com aproveitamento integral dos animais. A ideia era aproveitar todo o tubarão e comercializar na própria ilha. Em 1997, transformamos a empresa no Museu, e encerramos a atividade de captura”, explicou.

A mudança se deu pela inviabilidade econômica da atividade de pesca em Fernando de Noronha, uma vez que não havia volume da Ilha para o ramo pesqueiro. O museu, que não recebe nenhum apoio governamental, é sustentado pelos turistas, e oferece palestras e mini cursos, e possui equipamentos de apoio à pesquisa, que aproxima as pessoas do fundo do mar.

Uma das curiosidades apontadas pelo engenheiro foi a respeito do lixo que aparece na Ilha. “Existem dois tipos de lixo em Noronha, as que são lançadas pelos navios, geralmente objetos grandes, como geladeiras inteiras. E em fevereiro de 2014, encontramos um pacote diferente, com muitas sementes de vegetais que não ocorrem na Ilha, como olho de boi, junto com lixo doméstico, como brinquedo de criança, embalagens. Investigando com cuidado, percebemos que ele passou muito tempo na água. Encontramos embalagens que dizia quem era o fabricante: ‘República Democrática do Congo’. Investigando eu descobri que o rio Congo é o segundo maior rio da África, ou seja, aquilo era lixo que estava vindo da África”, contou.

Leonardo fez em seguida uma apresentação a respeito das espécies de tubarões encontradas em torno do arquipélago, acompanhada de diversas imagens de mergulhos junto com os animais e explicações a respeito do comportamento de cada espécie. “Conseguimos identificar catorze espécies, as de maior participação eram tubarão papa-areia, o bico-fino, o tigre e o cabeça-de-cesto”, afirmou, “cada um com um comportamento distinto”. Disse, ainda, que nos últimos oito anos, a quantidade de visualizações do tubarão tigre tem aumentado.

A respeito da atividade pesqueira em Noronha, o engenheiro informou que a pesca continua artesanal, com introdução recente do uso do GPS e da sonda, porém, as técnicas permanecem as mesmas. “Os peixes mais capturados na Ilha são a cavala, o atum, a barracuda e o dourado, peixes tipicamente oceânicos”, informou. “O evento importante que está influenciando na cultura da pesca, hoje, é a pesca esportiva. Têm pessoas com técnicas, transmitindo essa cultura, por osmose, à comunidade pesqueira. Muitas vezes, é mais rentável para o pescador alugar o barco para o turista ir praticar a atividade, do que ir pescar”.

Um dos grandes desafios apresentados pelo engenheiro de pesca é o convencimento do pescador em não abater um tubarão na região. “Imaginem, um tubarão pesa, em média, 30kg, em Noronha, 1kg custa R$30,00. Então, o pescador vê o dinheiro voando”.

Para finalizar, Leonardo apresentou um trabalho detalhado a respeito do tubarão limão, espécie predominante, hoje, na Ilha. A pesquisa foi feita através de mais de 630 mergulhos, com registro de imagens, com utilização de um mix de técnicas de mergulho, predominando o uso da apneia e o mergulho a reboque. Dentro da explanação, ele falou sobre como identificar a espécie, uma vez que a pele dele se funde com o ambiente e podem ressurgir sorrateiramente pela retaguarda. “Se aproximar de um tubarão pela retaguarda não é uma boa ideia, se quiser, é pela frente. É quando o animal tá lhe reconhecendo e isso vai gerar mais confiança”.

A respeito do ataque de espécies marítimas aos turistas também foi levantado por Leonardo. “Existe uma coleção de pequenos casos de pessoas socorridas por mordidas de moreia, eles pensam logo que foi um tubarão. Mas, na verdade quem toca terror é a moreia”. De acordo com ele, outros animais que provocam acidentes são o cangulo, o xareu branco e a barracuda.

“Recentemente, criaram a insanidade de querer tirar fotos com os tubarões. As pessoas provocam os animais, que acaba ocasionando o ataque humano”, fala ao citar o caso da turista que pegou o tubarão para tirar uma foto e acabou sendo mordida por ele, em fevereiro deste ano. O casal foi multado pelo Instituto Chico Mendes da Biodiversidade, e vão ter que pagar R$ 20.000,00 por crime ambiental.