Reformulação: a versão do Engenheiro 4.0

Os profissionais brasileiros, que estão sendo formados, precisam se reinventar para não ficar para trás com a revolução tecnológica

As diretrizes dos cursos de engenharia no Brasil estão passando por um processo de reformulação. A nova proposta que está sendo discutida em Brasília visa aproximar as formações acadêmicas das demandas do mercado de trabalho, hoje norteadas pela indústria 4.0, que une conceitos e experiências nos campos da robótica, internet das coisas e inteligência artificial. A proposta será colocada para consulta pública em maio pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). A expectativa é que, até julho, novas diretrizes sejam aprovadas pela Câmara dos Deputados, para que, em 2019, as universidades comecem a atualizar seus currículos. Além de estimular as instituições de ensino a formar seus alunos a partir dos novos requisitos de empregabilidade, a proposta é reduzir os índices de evasão, cuja média nacional é de 50%. A última atualização das diretrizes foi feita em 2002.

“Após aprovação, os cursos terão de um a dois anos para se atualizarem. Esse prazo será definido, mas deve começar a acontecer em 2019. Caso não o façam, não ganharão a renovação de reconhecimento pelo MEC e podem não ser autorizados a funcionar”, disse o membro do CNE responsável pela discussão Luiz Roberto Curi.

O documento que vai balizar os programas pedagógicos das engenharias foi elaborado pela Associação Brasileira de Ensino das Engenharias (Abenge), em parceria com a Confederação Nacional das Indústrias (CNI). Empreendedorismo, interdisciplinaridade, capacidade de inovação e liderança e disposição para aprender de forma continuada estão entre as competências exigidas aos novos profissionais. “A indústria hoje precisa de um engenheiro inovador. Os nossos currículos estão defasados. Os alunos não sabem o que fazer com o que aprendem. Essas novas diretrizes propõem o ensino de competências a partir de atividades desenvolvidas junto às empresas. Ou seja, aprender de forma contextualizada, elaborando e gerindo projetos, porque o operacional está cada vez mais automatizado. Por isso, o mercado precisa de lideranças para pensar em soluções”, explica o presidente da Abenge, Vanderli Fava.

Para ele, caso essa discussão não seja posta em prática, a médio prazo é possível que haja uma invasão de profissionais estrangeiros, porque os engenheiros formados hoje no Brasil não atendem às necessidades do mercado em quantidade e, sobretudo, qualidade.

O apelo pela modernização dos currículos levou a CNI a pautar o tema como uma das prioridades dentro da agenda Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI). “A CNI discute essa necessidade de modernização desde 2006 de forma sistemática. O diagnóstico que temos, a partir das queixas das empresas, é que os egressos das universidades, em geral, não possuem uma visão sistêmica do processo de produção (multidisciplinaridade) e têm dificuldade em desenvolver os soft kills, que é a capacidade de saber lidar com gestão de projetos, liderar, trabalhar em grupo e de forma integrada. Ou seja, o debate que se faz é de que precisamos de uma engenharia que saiba colocar a mão na massa a partir da nova realidade da indústria 4.0”, detalha a especialista em desenvolvimento industrial da CNI Zil Miranda.

Para exemplificar, Miranda dá como exemplo o trabalho dentro de uma indústria automotiva. “Um engenheiro que vai estar envolvido na produção de carros, tem que ter conhecimentos que vão além da mecânica. Ele precisa entender sobre eletrônica e materiais, mas também se preocupar com outras demandas, como sustentabilidade, mobilidade, urbanismo. Além de pensar na solução de um produto, precisa saber se ele é viável, se é sustentável, analisar grandes volumes de dados, antecipar demandas, melhorar a produtividade otimizando processos e tudo isso mexe com a forma como os cursos são organizados”, declara a especialista da CNI.

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Com a missão de se adaptar aos novos conceitos
Os cursos de engenharia nas instituições de ensino do estado seguem a realidade nacional. De acordo com a Abenge, no Brasil ainda não existe faculdade nesse campo de formação que trabalhe os alunos nos conceitos da indústria 4.0. Currículos fechados e academicistas, altos índices de evasão, pouco diálogo entre universidades e empresas e falta de incentivo à graduação estão entre os principais gargalos. No entanto, algumas iniciativas visam diminuir esse descompasso. Uma delas foi a aprovação da lei estadual 13.690/2008, que incentiva concessionárias estatais a destinar parte de seus orçamentos em pesquisa e desenvolvimento.

A Universidade de Pernambuco (UPE) montou o Laboratório de Automação de Redes Elétricas num convênio com a Celpe. “A primeira turma foi um curso de especialização para os funcionários do grupo Neoenergia. Depois, abriu-se espaço para a formação de alunos de graduação e pós-graduação. Nesse laboratório, desenvolvemos, entre outras coisas, mecanismos de medição e bloqueio do fornecimento de energia elétrica de forma remota, através de softwares, sem que haja necessidade de alguém ir até a casa da pessoa para fazer esse trabalho”, explica o coordenador do laboratório Roberto Dias.

O diretor da Escola Politécnica José Roberto Cavalcanti entende a necessidade do estreitamento do diálogo entre indústria e universidade. “Temos outros convênios com agências e órgãos do estados para desenvolver processos e produtos, sugerindo soluções para os problemas que eles apresentam. Também estaremos inaugurando o Instituto de Inovação Tecnológica no Parktel para gerar novas parcerias”, afirma

O estudante de engenharia civil da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) David Silva, 25 anos, diz que as cadeiras do curso formam um profissional com muito conhecimento teórico, mas com pouca prática para o que exige o mercado. “Eu tive a sorte de vivenciar uma experiência extracurricular em uma empresa júnior, dentro de um projeto de extensão do Centro de Tecnologia e Geociências (CTG). Comecei como consultor de projetos, passei para gerente e cheguei à presidência. Lá, todos são tratados como empresários, com responsabilidades reais. Experimentei nesse processo todas as etapas de uma empresa. Logo depois, consegui um estágio numa empresa de projetos para o qual eu estava realmente preparado”, conta o estudante do décimo período.

O pró-reitor para assuntos acadêmicos da UFPE, Paulo Goes, afirma que um trabalho tem sido feito para que o Núcleo Docente Estruturante faça um esforço para se chegar a um modelo mais atualizado de formação acadêmica. “O campus novo em Goiana estará dentro dessas novas diretrizes, com um modelo de formação em círculo. Durante três anos, o aluno fará um bacharelado interdisciplinar em ciência e tecnologia e depois cursará mais dois anos disciplinas específicas para receber o título de engenheiro. Acredito que em Goiana será um trabalho muito mais fácil porque vamos começar do zero. É diferente de fazer toda uma mudança de cultura numa universidade dessa complexidade”.

A diretora do Centro de Ciências e Tecnologia da Unicap, Andréa Câmara, conta que várias iniciativas têm sido feitas. “Um dos caminhos são convênios internacionais e utilização dos problemas encontrados no mercado para usar como insumo do trabalho em sala de aula”.

Fonte: Diario de Pernambuco