BR 101 – Sem estudo técnico e o devido planejamento, permanecerá o caos. Artigo de Eloísa Moraes

Os 30,7 km que compõem o contorno urbano da BR-101 na Região Metropolitana do Recife – trecho entre Abreu e Lima e Jaboatão dos Guararapes, é, além de uma rodovia nacional, uma via de grande importância para a mobilidade das cidades. Incorporada à sua malha viária, ela corta diversos bairros além de receber tráfego das entradas Sul, Norte e Oeste.

Há mais de dez anos, o trecho representa um verdadeiro caos urbano, responsável por uma desordem na mobilidade, alagamentos, mutilações e mortes. Consequência de quatro décadas de uso, sem a manutenção devida.

O Governo Federal e o de Pernambuco, sem dúvidas, compreendendo que não há mais como adiar a requalificação da via, inicia um projeto de restauração do contorno urbano. São 192 milhões investidos em um projeto que parece equivocado à comunidade técnica, e sem o devido planejamento prévio. Mais uma vez, o brasileiro vai pagar – no bolso e com a volta do caos urbano em pouquíssimo tempo – pela falta de planejamento que impera nas nossas administrações. A falta de planejamento e visão faz com que, no Brasil inteiro, as obras sejam licitadas em projetos básicos, onde se leva apenas um ano ou até menos para desenvolver projetos, na maioria de péssimas qualidades, e dez anos realizando a obra, improvisando nas soluções técnicas. Uma atitude inversa, quando sabemos que garantir um planejamento com projetos executáveis e de alto nível técnico diminuiria, consequentemente, o tempo para finalização da obra e aumentaria sua qualidade e durabilidade.

A fase da obra não pode e não deve ser um laboratório. Claro que, com inovações tecnológicas, podemos ter obras piloto, o que é salutar para a ciência. Mas, não se adequa na busca de soluções para grandes trechos, como a BR-101 que interfere na dinâmica urbana de um estado.

A escolha do pavimento flexível (asfalto), ou semi-rígido como foi anunciado, para substituir as placas de concreto, colocadas há 42 anos, é, no mínimo, inconsequente. Não precisamos ir muito longe para saber que apenas o pavimento em concreto de cimento Portland é capaz de suportar a demanda de veículos – 60 mil veículos/dia, o excesso de carga e a chuva, a exemplo dos excelentes resultados nos corredores principais de nossa capital, como a Av. Norte, a Av. Boa Viagem, a Av. Abdias de Carvalho e, ainda, a BR 232.

Os custos iniciais da pavimentação em concreto são maiores, porém se for bem executado e com o controle de peso adequado, possui uma vida útil enorme. Diferente da solução apresentada pela administração pública, o asfalto sugerido terá vida útil de, no máximo, dez anos, podendo começar a se deteriorar com apenas dois invernos.

Outro grave equívoco do projeto é discutir uma obra de tamanha dimensão, sem pensar em uma solução que viabilize a drenagem das vias. Enquanto a drenagem não for prioridade, teremos alagamentos a cada chuva, contribuindo com o caos.

Poderia ir além e falar a respeito da necessidade do corredor para transporte público, da falta de iluminação nos perímetros de maior travessia, na situação degradante das passarelas, mas todas essas questões passam, exclusivamente, pelo ponto inicial: sem planejamento não há qualidade, não há durabilidade. Há apenas prejuízo, e quem paga é o povo.