Filme “Dedo na Ferida” ganha prêmio de melhor documentário do Festival do Rio

Na noite de domingo (15/10), a 19ª edição do Festival do Rio anunciou o prêmio de melhor longa documentário, pelo júri popular, para o filme “Dedo na Ferida”, dirigido pelo cineasta Silvio Tendler. O longa, que é uma parceria entre a Fisenge e o Senge-RJ, traça um paralelo entre análises econômicas de diversos países do mundo e o cotidiano de pessoas afetadas pela desigualdade. “Esta parceria entre arte e movimento sindical sempre aconteceu na produção dos grandes filmes, desde a década de 1930 e a Fisenge e o Senge-RJ recuperam esse encontro entre dois vetores de transformação social”, afirmou Silvio Tendler. As exibições do longa-metragem, durante o Festival do Rio, lotaram os cinemas e foram aplaudidas pelos espectadores.

De acordo com o engenheiro e presidente da Fisenge, Clovis Nascimento, o prêmio representa um ato de resistência. “Em tempos de censura da arte e da cultura, esse prêmio reafirma a importância da liberdade de expressão, da democracia e do cinema alternativo como instrumento de luta e de disputa das narrativas por uma sociedade justa e igualitária”, disse Clovis. Além do “Troféu Redentor”, a produção do filme foi premiada com R$100.000 para divulgação e exibição do longa. O engenheiro e presidente do Senge-RJ, Olímpio Alves dos Santos comemorou a notícia. “É urgente popularizar, levar as informações da situação que o Estado brasileiro vive para a maioria das pessoas. O cinema, sua narrativa didática, permite isso. A proposta é que a exibição do Dedo na Ferida abra portas para debates em amplos segmentos sociais, para que seja apropriado por todos. As pessoas têm que ter consciência do que está ocorrendo. Para que, a partir da consciência tenham capacidade de se indignar, de se mobilizar, de se rebelar e, talvez, fazer ecoar o grito de ‘BASTA’ nisso tudo que vivem hoje”, enfatizou Olímpio, destacando o trabalho do engenheiro e ex-presidente do Senge-RJ, Sergio Almeida, que faleceu no dia 2 de setembro deste ano: “Sergio foi um dos idealizadores desse filme e, certamente, ficaria muito feliz em ver uma premiação reconhecida pelo público”. Silvio Tendler concorda e acrescenta: “Sérgio Almeida foi um dos grandes artistas desse filme, com uma formação econômica muito refinada, discutindo cada fotograma até o fim. Sou muito grato e me orgulho dessa parceria com Sergio”, pontou Silvio.

A primeira parceria com a Fisenge e o Senge-RJ aconteceu, em 2014, com o filme “Privatizações – A Distopia do Capital”.

“Dedo na Ferida” discute o retrocesso ideológico a posições neoconservadoras pautado pelo empobrecimento da classe média, pela falência dos Estados e pelo desemprego. Examina, ainda, de que forma o capitalismo deixou de ser produtivo para se tornar meramente especulativo, motivado pela aposta na geração de dinheiro fácil. O sistema financeiro, que deveria servir ao propósito de levar recursos dos setores superavitários para os deficitários interessados em investir em produção, abandonou o papel de “atravessador” e se assumiu como fim principal das transações econômicas. Os governos nacionais perdem autonomia e passam a lutar contra massas de capital que circulam livremente pelo globo. Grécia, Espanha, Portugal, Brasil e tantas outras nações veem seus destinos definidos pelos interesses da esfera financeira. São grandes corporações, que, por vezes, detém orçamentos mais robustos do que o de alguns Estados, atuam como um “governo sombra”, guiando políticas públicas que favorecem à maximização de seus lucros.

Entre os depoimentos da obra estão os de Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia; Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil; Paulo Nogueira Batista Jr, vice-presidente dos banco dos Brics; o cineasta Costa-Gavras; os intelectuais Boaventura de Sousa Santos (Universidade de Coimbra, Portugal), David Harvey (University of New York, Estados Unidos) e Maria José Fariñas Dulce (Universidade Carlos III, Espanha); os economistas Ladislau Dawbor (PUC-São Paulo), Guilherme Mello (Unicamp) e Laura Carvalho (USP), entre outros pensadores que interferem no mundo contemporâneo.

Sinopse 
“Dedo na Ferida” trata do fim do Estado de bem‐estar social e da interrupção dos sonhos de uma vida melhor para todos em um cenário onde a lógica homicida do capital financeiro inviabiliza qualquer alternativa de justiça social. Milhões de pessoas peregrinam em busca de melhores condições de vida enquanto o capital só aspira a concentração da riqueza em poucas mãos. Neste cenário de tensões sociais, intelectuais lutam para transformar o mundo levantando temas como o fim dos direitos sociais, o desemprego, o mercado e o ressurgimento de movimentos extremistas.

Biografia 
Em 48 anos de carreira, Silvio Tendler produziu e dirigiu cerca de 80 obras de cunho histórico e social entre curtas, médias e longas-metragens e séries. Licenciado em História pela Université de Paris VII, é mestre em Cinema e História pela École des Hautes-Études/Sorbonne. Desde 1979 é professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio. Tem mais de sessenta prêmios, entre eles seis Margaridas de Prata, da CNBB.

Filmografia 
Silvio Tendler fez as três maiores bilheterias do documentário brasileiro. “Jango” recebeu o Margarida de Prata e o melhor filme do Júri Popular do Festival de Gramado. “Glauber–O filme, labirinto do Brasil” foi eleito melhor filme pelo júri popular e a crítica do Festival de Brasília e participou da Seleção Oficial Hors concours do Festival de Cannes. “Encontro com Milton Santos” venceu o Festival de Brasília e levou o prêmio de melhor filme no Festival de Documentários Santiago Álvarez.

Texto por Camila Marins com informações da Caliban Filmes