Josué de Castro, o brasileiro mais respeitado no mundo

Um jovem recifense formou-se na Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro, — atual UFRJ —, em 1929, com apenas 20 anos de idade, e depois foi estagiar por alguns meses nos Estados Unidos. Então, voltou para sua terra, abriu um consultório, e pouco depois foi contratado por uma fábrica local para cuidar de trabalhadores com um estranho problema de saúde, que os tornava indolentes e apáticos. Essa incumbência mudou sua vida.

Ele não tardou a diagnosticar a doença: “Sei o que meus clientes têm, mas não posso curá-los porque sou apenas médico e não diretor dessa empresa. O mal dessa gente é fome”. Em consequência, foi despedido. Mas, a partir daí, dedicou-se ao estudo dessa enfermidade, tornando-se um influente nutricionista, geógrafo, sociólogo, político, escritor e ativista do combate à fome no País e fora dele. Ficou tão famoso internacionalmente, nos anos 50 e 60, quanto grandes estrelas do cinema e dos esportes, e chegou a receber três indicações ao Prêmio Nobel em duas categorias distintas: Medicina, em 1953, e Paz, em 1963 e 1970…

O ESTUDANTE
Josué Apolônio de Castro nasceu no Recife em 1908, filho único de Manoel Apolônio de Castro, proprietário de terras em Cabaceiras, no sertão da Paraíba, e de Josepha Carneiro, a “Dona Moça”, filha de um senhor de engenho da zona da mata pernambucana — uma família, portanto, de produtores rurais do Nordeste, região e econômica e politicamente atrasada, que ainda vivia da agricultura e sofria terríveis estiagens, de tempos em tempos.

Foi na seca de 1877, aliás, na qual morreram mais de 300 mil pessoas, que a família de Manoel Apolônio transferiu-se para o Recife. Mas, felizmente, ao contrário da imensa maioria dos retirantes, os Castro possuíam recursos; e quatro décadas depois o garoto Josué pôde ser matriculado em bons colégios, como o Ginásio Pernambucano e o Instituto Carneiro Leão.

Nesse último, Josué foi orientado pelo educador Pedro Augusto Carneiro Leão — a pessoa mais influente em sua vida, conforme ele declarou, mais adiante. E aos 17 anos foi estudar medicina na Bahia, autoconfiante, seguro da sua competência e vaidoso a ponto de só sair à rua com um livro bem grosso debaixo do sovaco, posando de intelectual.

Aliás, afora a medicina, ele também se sentia atraído pelas artes e passou a publicar poemas, crônicas e artigos sobre literatura, pintura e cinema em diversos jornais e revistas. E no último ano do curso transferiu-se para o Rio de Janeiro.

CIÊNCIA E POLÍTICA
De volta ao Recife, Josué começou a clinicar, teve a experiência na fábrica, e em 1932 realizou uma pesquisa sobre as condições de vida das classes operárias do Recife, na qual estabeleceu, pela primeira vez, a relação entre a alimentação dos trabalhadores e sua produtividade. Em 1933, foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais do Recife, onde ensinou Geografia Humana. E em 1934 casou-se com Glauce Rego Pinto, com quem teria três filhos: Josué Fernando, Anna Maria e Sonia.

No ano seguinte, Josué mudou- se para o Rio de Janeiro e começou a participar de diversos projetos governamentais. Dirigiu pesquisas no Instituto de Tecnologia Alimentar, coordenou a implantação dos primeiros restaurantes populares, desenvolveu programas de educação nutricional etc. E, na política, teve atuação destacada no movimento pela criação do salário mínimo, que passou a vigorar em 1940, por decreto de Getúlio Vargas.

Nos anos seguintes ele foi estudar in loco os problemas alimentares da Argentina (1942), dos Estados Unidos (1943), da República Dominicana e do México (1945), e da França (1947). Em 1946, fundou o Instituto de Nutrição da Universidade do Brasil e publicou Geografia da Fome, no qual apontou a verdadeira causa da tragédia nordestina: a exploração dos pobres pelos ricos. Demonstrando que a miséria devia-se não a fatores climáticos e raciais, mas ao modelo econômico e social então vigente, esse livro não só revolucionou a ciência como a despertou a consciência nacional para o problema.

Geopolítica da fome, por sua vez, lançado em 1951, como uma extensão da obra anterior, também se tornou um marco histórico na discussão das questões alimentares e populacionais, defendendo, inclusive, idéias revolucionárias como o desenvolvimento sustentável — dessa vez, em escala global. A fama de Josué ganhou, então, o mundo, e ele foi eleito presidente da Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em 1952, com votos de setenta países.

Na FAO, ele lançou diversos projetos de combate à fome no Terceiro Mundo, unindo conhecimentos científicos e habilidade política, muitas vezes enfrentando acirrada oposição dos países desenvolvidos. Mas o respeito que impunha era tamanho que foi reeleito por unanimidade, em 1954. Seus livros também chamaram atenção de cineastas neo-realistas italianos como Roberto Rosselini e Cesare Zavattini, embora apenas Rodolfo Nanni tenha chegado a filmar O Drama das Secas, no Brasil, em 1958.

Completando

A descoberta
“A fome se revelou espantosamente aos meus olhos durante a minha infância nos bairros miseráveis de Recife, na lama dos mangues do Capibaribe, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo. São seres anfíbios, habitantes da terra e da água, meio homens e meio bichos, arrastando-se na lama para poder sobreviver. (…) E quando cresci e saí pelo mundo afora, me apercebi com nova surpresa que o que eu pensava ser um fenômeno local, um drama do meu bairro, era um drama universal”. Josué de Castro, no prefácio para a edição portuguesa de Homens e Caranguejos, 1966.

O caminho
“Josué de Castro dirigiu seus estudos não apenas para o problema da fome em si e de sua incidência sobre as pessoas mal alimentadas, mas sobre as causas desse problema e a ameaça que representava para a humanidade, as sequelas que deixava nas populações, com repercussões na esperança de vida, na produção e no desenvolvimento intelectual. Estudou Geografia para localizar as áreas de fome endêmicas no mundo e as implicações provocadas pelas condições naturais e pela organização social, e preocupou-se, também, com a Sociologia, daí a sua visão da totalidade do problema e o norteamento tanto dos seus estudos quanto da sua ação política nos planos nacional e internacional”. Manoel Correia de Andrade, em Josué de Castro: o homem, o cientista e seu tempo.

Um dos maiores sábios e políticos do século XX

Findo o segundo mandato na FAO, Josué voltou para Pernambuco, elegendo-se deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), em 1955. E no Congresso Nacional apresentou diversos projetos ligados a questões agrárias, educacionais, culturais e econômicas — inclusive a regulamentação da profissão de nutricionista —, reelegendo-se em 1959. No campo internacional, fundou a Associação Mundial de Luta contra a Fome (Ascofam), e em 1962 foi nomeado embaixador do Brasil na ONU, pelo presidente João Goulart.

A essa altura, Josué era conhecido e reverenciado em todo o mundo, capaz de atrair, por exemplo, uma platéia de 3.500 pessoas na cidade de Rouen, no interior da França, para ouvi-lo palestrar. Mas sua luta a favor dos pobres e da reforma agrária era muito inconveniente para os responsáveis pelo golpe de estado civil-militar de 1964, que não vacilaram em cassar seus direitos políticos logo no primeiro Ato Institucional, privando o País dos seus grandes serviços.

Impedido de voltar ao Brasil, Josué foi viver em Paris, onde fundou e dirigiu o Centro Internacional para o Desenvolvimento (CID), presidiu a Associação Médica Internacional para o Estudo das Condições de Vida e Saúde (Amievs) e foi professor do Centro Universitário Experimental daquela cidade. E ainda fez parte dos Cidadãos do Mundo, um conselho formado por treze personalidades do calibre de Bertrand Russell, Linus Pauling, Rajan Nehru etc., que a partir de 1967 reunia-se para discutir os grandes problemas internacionais.

Josué, contudo, sentia uma falta terrível da sua terra, a ponto de declarar que “não se morre apenas de enfarte ou de glomerulonefrite crônica, mas também de saudade”. E sofreu muito até conseguir autorização para voltar, em setembro de 1973. Mas enquanto esperava, ansioso, a entrega do passaporte pela embaixada brasileira, morreu subitamente de ataque cardíaco.

Entre as inúmeras comendas que recebeu, Josué de Castro foi premiado pelo Conselho Mundial da Paz e ganhou a Legião de Honra da França, afora as três indicações para o Nobel e uma homenagem de outro genial mulato pernambucano, Chico Science, na música Da lama ao caos: “Ô Josué, nunca vi tanta desgraça / Quanto mais miséria tem / mais urubu ameaça…”

Fonte: Paulos Santos de Oliveira/ Diario de Pernambuco

 

Postado em 31.01.2017