“Desempregado bate na mulher e quebra a casa” ou “Tirar o pelego de vocês é fácil”

* Por Roberto Freire, diretor de divulgação e cultura do Senge-PE

A primeira manchete foi capa do jornal Última Hora, do Rio de Janeiro, no dia 26 de dezembro de 1983 e a segunda foi uma frase proferida no meio da intervenção feita pelo representante da oposição à direção do Sindicato dos Taxistas de Recife, no mesmo dia, no auditório da Escola Politécnica de Pernambuco, onde acontecia a posse da nova diretoria do Sindicato dos Engenheiros de Pernambuco. Nesses 33 anos, entre 1983 e 2016, a palavra desempregado só foi menos utilizada nos breves períodos dos governos de Lula e Dilma. Já bater em mulher nos dá uma sensação de permanência terrível, que ultrapassa o tempo e as fronteiras.

O ano de 1983 ainda trazia manchetes muito semelhantes às que vemos hoje, como a do jornal Tribuna da Imprensa, que dizia “Galvêas: crise é maior do que a de 1929”. Segundo o ministro da Fazenda, Ernane Galvêas, do último governo da ditadura militar, que se instalou no Brasil a partir de 1964, através de um golpe, “a atual crise econômica é a mais séria da história do país”, e ainda completava o raciocínio dizendo que “as pessoas ficam desempregadas e o governo não tem meios para implantar um sistema social”. O ministro era acusado pelos empresários de estar praticando uma política de recessão e desemprego.

Em abril de 1983, em matéria do Diário de Pernambuco, “Luizaugusto Barreto da Silva Nem apresentou proposta à diretoria do Sindicato dos Engenheiros, solicitando posicionamento contra a compra de know-how”, argumentando que a compra de tecnologia estrangeira estava causando desemprego entre os profissionais da engenharia e agronomia. A proposta foi aprovada e o “presidente do sindicato, professor Rawilsean Dutra, enviou expediente às autoridades do Planalto e aos deputados federais e senadores abordando o problema”. Na mesma matéria, a diretoria que estava encerrando o mandato fazia um balanço dos trabalhos realizados, citando o programa assistencial e social, com a inauguração do Senge-Bar e a ampliação do serviço de odontologia, prótese e tratamento de canal, que a partir de então estava atendendo os profissionais à noite. “Segundo o presidente Rawilsean Dutra, com essas duas realizações cumpre a plataforma de trabalho, lançada durante a campanha eleitoral”.

A noite de 26 de dezembro de 1983, com a solenidade na Poli, era o coroamento de uma árdua luta do grupo que assumia a direção do sindicato. Na primeira tentativa de participação no pleito eleitoral acontecido três anos antes, o grupo sequer conseguiu inscrever a chapa, por conta de um problema de “transparência” com o edital. Na eleição seguinte, essa em que o grupo foi vitorioso, foi necessário dormir sobre as urnas, para que os votos não mudassem de lado.

Na matéria do Diário de Pernambuco de 25 de dezembro, que dizia: “Sindicato empossa eleitos”, Cláudio Pinto, o presidente da chapa, afirmava estar “disposto, junto com os companheiros a executar programa de trabalho com vistas a uma gestão sindical democrática, fortalecendo a entidade e proporcionando atuação mais efetiva do órgão nas questões profissionais e a discussão dos grandes problemas nacionais”. No dia seguinte, nova matéria no Diário, que afirmava em manchete que “Jarbas quer luta pelas diretas”, dizia que “ontem à noite, na solenidade de posse da nova diretoria do Sindicato dos Engenheiros, houve manifestação da categoria em favor das eleições diretas”. O Sindicato entrou no movimento em favor das eleições diretas para presidente da República e nunca mais saiu das lutas democráticas e populares.

A diretoria que está sendo empossada hoje é ferrenha seguidora dos valores democráticos que nortearam a caminhada vitoriosa das direções que se seguiram à capitaneada por Cláudio Pinto. Foram anos difíceis e conturbados, mas mesmo assim tivemos conquistas. As lutas mudaram, alguns companheiros do passado, como Jarbas, hoje defendem e caminham ao lado de golpistas, mas a nossa história nos credencia a continuarmos na defesa dos trabalhadores e trabalhadoras, dos engenheiros e engenheiras, da engenharia e do Brasil. Parabéns a Fernando Freitas e toda a diretoria que toma posse nesta data.

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