Chapéu de Palha

*Artigo do Eng. Civil e presidente da Abenc-PE Stênio de Coura Cuentro, uma homenagem a Miguel Arraes

Plano de Ocupação da Mão de Obra Disponível no Período da Entressafra da Cana de Açúcar no Estado de Pernambuco. Com um título desses dá prá deduzir que é coisa de engenheiro, publicitário nunca cometeria esse erro. Que o diga Ricardo Leitão, segundo ele, autor do nome do programa.

Pra nós, engenheiros do DER/PE, lá em 1987, primeiro ano da gestão do Doutor Miguel Arraes, muito trabalho. Chegava o fim de outubro e Paulo Cassundé, Secretário dos Transportes do Estado convocou a Diretoria do DER/PE para uma reunião em seu gabinete. Dava notícias de um encontro com Doutor Arraes de que a safra da cana seria antecipada para dezembro por falta de chuvas. Segundo Romeu da Fonte mais de 200 mil ficariam sem emprego. O que fazer? Assim mesmo. Seco. Direto. E não sabíamos o que responder. Dê uns três dias pra pensar e lhe traremos uma proposta. Fechado. três dias. Saímos de lá, eu, Ned Cavalcanti, Carlos Calado e Edson, todos engenheiros e diretores do DER/PE com a missão.

No DER/PE chamo mais um grupo de engenheiros da Diretoria de Operações e repito a pergunta. O que fazer? Sem recursos para manutenção das estradas foi quase que automático. Vamos fazer o serviço com esse grande contingente. A maioria das estradas pavimentadas fica na zona da mata mesmo. O pessoal mora perto, a mobilização seria tranquila. Em resumo acertamos contratar até 50 mil pessoas para roço, capinação, tapa-buracos e outros serviços de conservação rotineira. Tereza Julieta se encarregou de escrever o projeto, Reginaldo Maia Leite e Pedro Torres convocaram os engenheiros residentes, o pessoal da manutenção de máquinas e equipamentos sob o comando de Djalma também foi engajado, enfim, quase 1.000 pessoas do órgão foram mobilizadas para a tarefa. Plano pronto e com esse título enorme, voltamos a Paulo Cassundé e apresentamos. Ótimo ele disse. E o dinheiro para combustível, salários do pessoal, ferramentas e todo o resto. Vamos falar com Doutor Arraes. “Vou pedir ao Sarney respondeu ele”. Como assim? Semana passada o pau tinha comido pela imprensa: PSB x PMDB. Arraes x Sarney. Veio aquele riso de raposa sabida. “Com o Sarney eu me entendo”. Uns quinze dias depois chegam à Secretaria de Transportes dois técnicos do Ministério de Planejamento pra liberar a primeira parcela de um milhão e meio acho que era cruzado, ou cruzado real, não lembro.

Mobilização, máquinas, contratação com carteira assinada, assim mesmo, ninguém seria clandestino, era dessa forma que Doutor Arraes acreditava e nós defendíamos. A luta tinha origem no primeiro governo dele, na Zona da Mata Sul, fim do barracão, salário na mão, crédito no comércio pra comprar na valsa, carteira assinada era respeito ao trabalhador. Cesta básica semana sim, semana não, entre uma e outra o salário, pago pelo BANDEPE. Até que as chuvas chegaram de novo, lá pra março, abril. 12.500 empregados temporários do Estado de Pernambuco com carteira assinada. No ano seguinte o programa se repetiu, foi ampliado para a manutenção de escolas, postos de saúde e hospitais e virou o Chapéu de Palha.

Essa é uma singela homenagem que nós engenheiros prestamos à memória de Doutor Arraes que nesse 15/12/2016 completaria 100 anos de nascimento. Um grande homem a quem temos orgulho de prestar homenagem a quem reconheceu e confiou a nós, engenheiros, a gestão dos órgãos e secretarias de engenharia do Estado. Obras, transportes, saneamento, manutenção de prédios na educação e saúde, trânsito, planejamento, aqui na capital e no interior, sem concessões aos pedidos políticos, do chefete do interior que se achava e se acha dono do pedaço. Meritocracia pura e simples. Autonomia para trabalhar. Nunca mesmo em quase oito anos que tive a honra de servir ao Doutor Arraes em duas gestões, recebi dele um único pedido que não fosse republicano e do mais alto interesse público. Obrigado Mestre Arraes pela honra de ter servido ao Povo de Pernambuco…

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